segunda-feira, 2 de março de 2009

Entrar ou sair?

Muito mais fácil do que andar nos trilhos é sair dos trilhos.
Muito mais fácil do que a certeza do que se quer é a dúvida pelo não querer....
A prepotência humana está em achar que se sabe as respostas, que se tem as certezas e o caminhos corretos. O tempo nos ensina, e parece cruelmente nos mostrar, que os caminhos são feitos de momentos, momentos estes que podem não ser tão rápidos como um piscar de olhos, mas têm começo meio e fim como cada uma de nossas piscadas...
Momentos que podem fazer com que a mais doce das pessoas pareça a mais fria das criaturas, momentos que podem intensificar com simples palavras uma decepção, momentos que podem transformar a mais pura certeza na maior dúvida existente. Por pertencemos à raça humana ainda acredito que podemos escolher entrar ou não nos trilhos, mas uma vez dentro é inevitável o momento da saída.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Segundos coloridos

Cuidar do jardim para que venham as borboletas! Frase que denota um feito simples e fácil, certo?
Ah...como é gostosa a simplicidade das palavras! Mas, sobre esse jardim muitas vezes o sol é escaldante e a chuva tenebrosa. A terra parece estar seca demais ou úmida demais, a primavera parece perder a vez para o que demonstra ser o verão, o outono e o inverno interminável....
O que faz parte desse jardim? Os que já visitei são feitos de valores, premissas, crenças, amores, dores, frustrações, dificuldades, risadas, lágrimas, abraços, angústias, medos, realizações, decepções, paixões, encantamentos, tristezas, mágicas, alegrias, mentiras, verdades, sucessos, fracassos. Ainda parece uma tarefa simples cultivar esse jardim?
E as esperadas borboletas, de que cores são? De que tamanhos são? Arrisco dizer que são perguntas muitas vezes sem respostas.
Em grego antigo borboleta diz-se Psyché, ou seja, alma. Por sair do casulo ao nascer, a borboleta é o símbolo da alma imortal...Já me peguei pensando que borboletas apenas pousam...por alguns segundos, se tivermos sorte por alguns minutos.
São minutos por uma primavera inteira! São segundos por uma vida inteira!
É a espera ansiosa pela visita repentina, pelo colorido de um bater de asas, pelos segundos que validam o cultivo daquele jardim...

Geografia natalina

Não é de hoje que as pessoas questionam o real significado do Natal. Não é de hoje que os comerciantes esperam ansiosos o último mês do ano para o recorde de vendas. Porém, também não é de hoje que o socialmente aceito é o “Natal em família” e o “Ano Novo com os amigos”.
Tomo a liberdade de questionar: o que é o Natal em família? É o da propaganda da margarina Qualy? Novamente ousando com minhas definições, digo que o Natal em família é aquele que me ensinaram a celebrar toda véspera do dia 25 de dezembro. É aquele em que o que se espera são as tradições construídas, tradições estas que se reeditam a cada novo ano, a cada nova foto com novos componentes e novas ausências. Pode ser a tradição da salada de bacalhau, da porção de bolo de nozes sem uva passas, ou quem sabe a tradição do primo mais velho em estourar a champagne?
O Natal em família tem sabor de lombo trançado com manjar branco de sobremesa. O Natal em família implica no lugar certo no sofá para receber os presentes que finge-se não esperar. Natal em família é o agradecimento “escondido” para aquela que pacientemente escolhe os presentes que serão calmamente entregues aos netos, filhos, cunhados. Natal em família é ter a certeza que dentre todos haverá o presente do rancho, embora este possa não ter mais essa configuração para quem o faz sempre terá para quem o recebe. Natal em família é escutar um a um os nomes serem repetidos na sala por diferentes vozes, porém com as mesmas intenções. Natal em família é ainda disputar a atenção de todos com a prima mais velha, mesmo sabendo que o mundo lá fora já não é mais tão cor-de-rosa como a casa da Barbie. Natal em família é esperar no quarto ouvir a voz do churrasqueiro no dia seguinte para só assim acordar na mesa do almoço. Natal em família é rir com a mesma intensidade e espontaneidade independente da idade, é encontrar no olhar de cada um a cumplicidade das histórias vividas, das broncas e castigos divididos entre os primos.
Uma coisa eu afirmo, a ansiedade dos comerciantes não se compara a ansiedade em se diminuir a distância entre Araras, Ribeirão Preto, Salto, São Paulo, Santo André, Bragança Paulista, São Carlos, Campinas...

domingo, 14 de dezembro de 2008

A cadeira do bolo

Se eu perguntasse às pessoas o que elas entendem por privilégio, acredito que as definições mais comuns trariam palavras como: "vantagem", "direito exclusivo" ou até mesmo "imunidade". Confesso não me encontrar em nenhuma dessas palavras, ou melhor, nenhuma delas faz sentido quando usadas para descrever o que eu entendo por privilégio. Ok, sei que não sou autora de nenhum dicionário tampouco de um livro de significados, nem tenho pretensão para tal. Mas, alguns momentos me fazem questionar qualquer Aurélio...Hoje posso dizer que para mim privilégio é viver para ouvir um "que bom que você veio", é ver alguém que recebe um presente fazer questão de ler as "beiradinhas" dele para depois colocá-lo sob a cama, é ganhar talheres brancos para almoçar, é poder trocar olhares durante as conversas no cabeleireiro, é poder provar Melissas direto da prateleira, é morrer de rir por não saber controlar a mangueira de água, é contar as fatias de lagarto para rechear o pão, é saber dividir a torta de cebola matematicamente, é confundir os nomes das tias e levar xingo por lavar a louça. Para mim privilégio é poder enquadrar a máquina fotográfica enquanto os pedidos são feitos, é poder perguntar:"por que essa cadeira está no bolo?", é fingir que montou o cubo escondendo os buracos, é dormir e acordar na mesma posição, é comer torta gelada, é fingir não ver as bolinhas recheadas de goiabada, é ver a lembrancinha no dia seguinte do casamento, é escolher a cor e o tamanho do soutien novo, é poder assistir dois sorrisos escolhendo o melhor azulejo, é ter a mesa posta o dia todo. Privilégio é ver a bochecha vermelha ao comprar o que seria uma falsificação, é o som do jogo de futebol de domingo na televisão, é assistir a tentativa de fazer a entrada USB da televisão funcionar, é provar a calça sobre a calça, é ver os presentes escondidos, é ver o capricho da caixa de chá, é poder assistir as irmãs brincando pelas antigas camas, é ver a bandeja do pavê ser lambida pausadamente pela cadela da casa, é ver a disputa pelo colar mais bonito, é rir feito criança por derrubar as latinhas da parede. Privilégio é conhecer pessoalmente aqueles que estampam o porta retrato de pessoas tão iguais e tão diferentes que se amam, se desentendem, fazem as pazes e que se completam.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O lençol branco e a fronha amarela

Aquele quintal costumava ser tão grande...o galinheiro até mesmo assustador.
Mas o sorriso ao receber no portão continua o mesmo, embora o andar já se arraste além do normal.
Chega a ser intrigante a força do tempo, por hora é melhor não questionar porquês e abraçar com toda a força a realidade!
A rotina realmente nos tira dos trilhos, porém o trem continua passando e por vezes não nos damos conta disso. As preocupações consomem, as decepções marcam, a dor incomoda, a vontade aumenta, o sono atormenta, a fome aparece e o tempo falta. O tempo falta ou o tempo passa? Se deparando com aquele arrastar além do normal cheguei a conclusão de que o tempo falta por passar demais...
Houve o tempo de brincar na terrinha daquele quintal, de acordar com o barulho das pombas, com o cheiro de café com leite na cozinha, acordar com a voz animada das irmãs que se reencontravam e tagarelavam na copa. Acordar de um sofá com o lençol branco e com a fronha amarela. Tempo em que o almoço era mais do que o almoço, eram as coxinhas de frango disputadas. Ai que delícia!!! (Coitadas das irmãs tagarelantes que tinham que conter os filhos na beirada do fogão!). Nem mesmo a época das eleições era tediosa pelas propagandas eleitorais, afinal disputar quem recolhia o maior número de santinhos na esquina era um campeonato e tanto!
O trem continuou passando...a mesa de pedra continua lá, porém hoje já não faltam mais tantos lugares na hora do almoço, afinal o número de passageiros já não é mais o mesmo. A cozinha também continua lá, hoje povoada pelas várias gerações que já fritam as coxinhas de frango e não mais as disputam. O sofá também continua lá, embora tenha uma cara nova e não mais desperte em todos o aconchego da fronha amarela.
O tempo faltou, o tempo passou, mas carrega o andar arrastado daquele sorriso ao abrir o portão.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Pêra, uva, maçã ou salada mista?

Proximidade cria uma amizade ou a amizade cria uma proximidade? E onde inicia-se a intimidade? E se a intimidade gerar a vontade de maior proximidade? Se o tema principal é o ser humano e seus sentimentos, os questionamentos são intermináveis. Eu diria que uma das linhas mais tênues a ser transposta é a da amizade. Quem nunca se pegou questionando se é amor ou amizade? Se é pêra, uva, maçã ou salada mista? Quem nunca tentou nomear aquelas cosquinhas internas que insistem em nos perturbar...Não são poucas as músicas e poemas que tentam traduzir e definir os mais variados sentimentos e seus desdobramentos. Até nós mesmos arriscamos alguns devaneios. Afinal, quem nunca se perdeu em dúvidas, anseios, ansiedades, medos e vontades? Como diria Lobão, deixa o que for te acontecer; sua insegurança lentamente vai parar de te esconder; viva e não tenha medo não; livre os teus gestos de ensaiar; felicidade é coisa que não dá pra se premeditar; calma não há nada a conseguir sem vitória, nem derrota, sem troféu pra exibir; deixa o teu riso aparecer; A vida é bem mais simples do que geralmente a gente faz. Assim, mais do que definir paixão, amizade, amor, vamos nos limitar a sentir, a viver e não ensaiar!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

27 anos de infância

Melhor amigo de infância tem que ser conhecido na infância? Não, essa não é uma pergunta infame! Procurando o significado da palavra amigo no Aurélio encontraremos: 1. Que tem gosto por alguma coisa. 2. Aliado. 3. Caro, dileto. 4. Dedicado, afeiçoado. sm 1. Indivíduo unido a outro por amizade. Já a palavra infância: 1. Período da vida, no ser humano, que vai desde o nascimento até a adolescência; meninice. 2. As crianças em geral.
Como não acredito que a adolescência tenha uma faixa etária definida (a própria psicologia tem inúmeras teorias para discuti-la) minha pergunta inicial está respondida: é possível aos 25 anos conhecer a nossa mais nova amiga de infância!! E o melhor de tudo é poder construir uma amizade de infância com a maturidade da idade adulta...Os conceitos mudam, os valores, os significados são totalmente outros. Mas, o sentimento é o mesmo de quando conhecemos um amiguinho no tanque de areia do primário ou na queimada do campeonato da escola. A intensidade das situações vividas muda, a complexidade da vida adulta acaba dando uma diferente conotação às relações de amizades, mas os laços são tão sólidos quanto aqueles construídos com os vizinhos de rua durante as férias escolares. Hoje, refletindo sobre o tema entendi o porquê adjetivar uma mais nova amiga de infância de Flor. Sabe o que o nosso amigo Aurélio diz ser uma flor? Flor: Beleza, encanto. Há adjetivo mais perfeito para descrever uma amiga de infância? Eu diria que a minha flor é de uma beleza que encanta...seja a beleza do sorriso, do abraço (que é mais do que verdadeiro!), a beleza das pálpebras inchadas após uma crise de choro, a beleza da cumplicidade de olhares, a beleza das abreviações on line (oie, tdb? v. está bem?), a beleza das confissões, a beleza de burlar regras, a beleza da sabedoria indiscutível, da família indestrutível, a beleza de um universo paralelo, a beleza dos "pitos" necessários, das estampas inusitadas, a beleza do cheiro de Melissa nova, a beleza de futilidades inegáveis, a beleza de mensagens incontáveis, de ligações intermináveis, de emails na madrugada, a beleza de um ciúmes infantil, de trilhas somoras, a beleza de personagens cinematográficos, de PS´s e PS´s, de uma sensibilidade ímpar, do chutar latinhas na esquina, beleza que instiga a mais bela strega, beleza de uma saudade apertada, a beleza de um amor sem tamanho...
A definição da minha Flor não está em Aurélio nenhum e sim na minha mais nova amiga de infância!